SOUND BISCUITS: TREY MARTINHO

SOUND BISCUITS: TREY MARTINHO

Há algo especial em descobrir o que os artistas criam quando seguem sozinhos, depois que os holofotes da banda se apagam. Os desvios de rota, os projetos paralelos, os discos solo. É a oportunidade de ouvir uma voz sem o suporte, e as limitações do coletivo.

Nesta edição do Sound Biscuits, Trey Martinho, Creators & Innovators da Vissla, apresenta uma playlist inspirada justamente por essa ideia. A seleção reúne músicos que deixaram sua marca em algumas das bandas mais influentes da história e, em seguida, exploraram novos territórios em suas carreiras individuais. Das primeiras gravações solo de John Lennon às experimentações de John Cale após o Velvet Underground, a proposta vai além de estilos musicais: ela convida a enxergar diferentes perspectivas artísticas.

Mais do que uma coleção de canções, a playlist revela o que acontece quando um artista se expressa sem filtros, apoiando-se apenas em sua própria identidade criativa. Uma abordagem que reflete o universo de Trey Martinho, surfista, shaper e artista de Santa Cruz, cujo trabalho é guiado pela intuição, autenticidade e liberdade de expressão.


SOUND BISCUITS // TREY MARTINHO PLAYLIST


Sentamos com Trey para conversar sobre o pensamento por trás da playlist.


Antes de falar das músicas, onde você estava quando começou a montá-la?

A playlist foi mais construída em torno do “quando” do que do “onde”. É basicamente uma seleção de músicas que eu gosto há muito tempo, junto com algumas mais recentes. Se tiver que apontar um começo, provavelmente foi enquanto eu dirigia por aí, em casa.


Você costuma começar playlists a partir de um sentimento ou de uma música que puxa as outras?

Neste caso, a ideia veio primeiro: muitos músicos de grandes bandas acabam fazendo trabalhos solo incríveis.


Existe alguma faixa que funciona como base da playlist?

Sim, duas. “Mother”, do John Lennon, sempre foi uma das minhas favoritas. Sempre gostei dos Beatles, mas ver o impacto emocional cru do Lennon sozinho, depois da separação da banda, é algo muito forte.

A outra é “Big White Cloud”, do John Cale. O Velvet Underground e o Lou Reed são referências máximas pra mim, e é interessante ouvir como o John Cale também expressa sua contribuição para a banda através do próprio trabalho.


O que conecta artistas tão diferentes dentro da sua visão?

O fio condutor é justamente perceber como o trabalho solo revela a voz e a influência de cada músico dentro das suas bandas originais. A playlist reúne nomes como The Velvet Underground, The Beatles, Beat Happening, Pavement, Pink Floyd, The Grateful Dead e outros.


Muitas dessas músicas têm um caráter mais cru. Isso te influencia também na arte que você cria?

Sim, concordo. Acho que isso vem, em parte, do fato de o artista estar sozinho, fora da banda. Eu gosto muito de demos e da simplicidade de uma boa música. Essa imperfeição dá mais vida a ela.

Não diria que meu trabalho tenha exatamente essa mesma sensação, mas é algo interessante a explorar.


Quando você cria, a música te ajuda a focar ou a se distrair?

Quando estou trabalhando, a música me ajuda a manter o foco, evitando que minha mente se disperse. Quando estou criando, ela ajuda mais a definir o clima. De qualquer forma, o que eu ouço influencia diretamente o que eu produzo, então costumo manter algo mais calmo.


Santa Cruz influencia essa seleção musical?

Com certeza. Minha rotina de dirigir até surfar, trabalhar e levar meu cachorro à praia, ouvindo essas músicas, faz parte disso. Mas também é algo pessoal meu gosto existe independentemente do lugar.


Algumas músicas ficam ligadas a fases específicas do seu trabalho?

Sim. Quando olho para certas pranchas ou trabalhos, lembro imediatamente do que eu estava ouvindo naquela época. É como uma trilha sonora daquele momento.

Às vezes, quando estou fazendo pranchas personalizadas, escuto músicas que o cliente gosta. Isso ajuda a trazer a energia dele para o processo.


A música já influenciou decisões de design?

Não diretamente que eu lembre. Mas já aconteceu de letras ou ideias me inspirarem a criar algo relacionado. Em processos mais livres, o que estou ouvindo pode acabar influenciando o resultado em tempo real.


Você ouve música de forma diferente hoje em comparação ao passado?

Sim. Quando somos mais jovens, temos menos referências para comparar. Com o tempo, ganhamos mais repertório e passamos a entender a música de formas diferentes.


Você ainda busca novas músicas ou fica mais no que já conhece?

Gosto muito de descobrir músicas novas dentro do mesmo universo do que já me agrada. Mas muitos desses sons acabam se tornando parte da minha vida de forma permanente.


O que faz uma música durar tanto tempo na sua vida?

Não sei exatamente. Acho que algumas músicas simplesmente têm algo que parece eterno.


O que você espera que alguém sinta ao ouvir essa playlist pela primeira vez?

Espero que a pessoa tenha uma boa sensação e pense no contexto dos artistas dentro e fora das suas bandas. Existe também um lado histórico interessante nisso.

E também que seja algo divertido que a pessoa possa criar sua própria playlist com integrantes de bandas que gosta e perceber novas conexões.


É uma playlist para qual momento do dia?

Pode funcionar em vários contextos. Dá para ouvir sozinho e refletir, ou colocar no carro com amigos e simplesmente aproveitar a viagem. Ela tem essa dualidade.